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 Um Pavor Precoce

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Nichya
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Título : White Robe

Sexo : Masculino
Registrado em : 09/06/2010
Idade : 27
Localização : Moscow

MensagemAssunto: Um Pavor Precoce   Qui Dez 30, 2010 11:38 pm








CAPÍTULO I: A VISITA



Histórias de terror são, quase todas, previsíveis e monótonas. O que eu irei lhes contar, entretanto, não chega ao patamar de “ficção”. Foi algo que eu vivi... algo que estará para sempre cravado em minhas memórias, por mais que os anos passem. Seja por todo horror que vivenciei, ou pelo caráter fantástico da vivência que tive.

O meu primeiro relato me fez passar por boba diante das autoridades locais. Inicialmente, consideraram-me uma jovem estúpida que fantasiou uma série de contos de terror. E talvez seja assim que você irá me enxergar enquanto eu lhe contar tudo o que vivenciei.

Pois bem,

Tudo começou na época em que morávamos em um pequeno castelo na região de Berlim, capital da Alemanha. Assim como muitos outros nobres ingleses, o meu pai decidiu criar raízes neste lugar relativamente remoto, onde qualquer pequena quantidade de dinheiro proporciona uma vida confortável.

Minha mãe, uma nobre alemã, morreu quando eu ainda era apenas uma criança. O meu pai, então, entregou-me aos cuidados de quatro adoráveis senhoras: Madame Lupret, Constance, Baba e Nadine. Enquanto Madame Lupret cuidava de minha educação, Constance, Baba e Nadine cuidavam do nosso castelo e zelavam por nosso conforto.

Cresci em um ambiente caloroso, onde tive acesso a tudo o que desejava, exceto um círculo próximo de amigos. Conforme cresci, passei a considerar o lugar pitoresco e bizarro, mesmo que as propriedades de terra não ficassem muito afastadas umas das outras. Como você pode imaginar, eu não tinha uma vida social muito movimentada... o grupo de quatro ou cinco amigas que me visitava já não me era suficiente. Eu apenas me sentia mais entediada e cansada... cansada de uma rotina que se repetia há 19 anos.


Permita-me descrever, antes de mais nada, o nosso schloss, o castelo onde moramos. Papai o comprou há cerca de 25 anos, quando decidiu vir morar aqui. Nessa época, o nobre que aqui habitava estava decidido a se livrar da propriedade... o que de certa forma assustou o meu pai, tanto pelo baixo preço quanto pela imponência da propriedade. Desde sempre o castelo despontou como um dos mais belos da região, muito embora tenha sido comprado por uma magra quantia. São cerca de 16 quartos espalhados por toda a propriedade. Uma grande e bela escada de pedra forrada com um tapete vindo da Rússia corta a bela sala de estar. Por vezes me escondi pelos quartos, em busca de passagens secretas, enquanto as criadas ou minha ama se punham a me buscar.

A minha história começa em uma tarde quente, no ano de 1880. Um dia tão prodigioso como eu nunca havia visto igual. As janelas do castelo, abertas, permitiam que a luz do sol penetrasse nos cômodos e nos corredores.

A minha visão desse schloss passou a ser diferente nessa tarde de domingo, quando eu havia recém-completado os meus 15 anos. Ao correr pelo campo, próximo do castelo, deparei-me com um velho camponês a colher alguns tubérculos do solo. Curiosa, abaixei-me e ofereci-lhe ajuda, mais para saber o que ele fazia do que para realmente auxilia-lo. O homem, então, mirou-me com os seus intensos e, de certa forma, assustadores olhos azuis, dizendo-me:

- Cuidado com o diabo que lhe espreita!

Por um momento perdi o equilíbrio e, agachada, caí para trás, sobre o capim.

- Não compreendo, Senhor! O que queres dizer com essas palavras?

O velho olhou-me com pavor e, para a minha surpresa, despejou o meu nome no ar:

- Christine.. Sei quem sois tu, pobre criança. Tua mãe foi a primeira, e você logo será a segunda! Cuidado, o diabo lhe espreita. O diabo lhe espreita, criança amaldiçoada. O diabo lhe espreita!

O desespero tomou conta de meu coração e de meu pensamento. Corri dali, sem entender as palavras do velho, mas assustada com o que ele disse. Eu, que era tão segura de mim mesma, a ponto de rir de tantas histórias tolas contadas pelos camponeses. Como pude me assustar com aquelas palavras inesperadas? Como aquele homem que eu nunca havia visto pelas redondezas de nossa propriedade saberia o meu nome? Por qual motivo me diria coisas tão tenebrosas? Cerrei os olhos enquanto corria, e senti o vento frio tocar o meu rosto, até me esbarrar em algo macio, que me fez tropeçar e cair.

Ao abrir os olhos, deparei-me com uma figura conhecida: era o meu pai, que me mirava com um olhar severo.

- Disse-lhe inúmeras vezes, Christine, que não tolero atrasos. As refeições não devem ser atrasadas por sua indisciplina.

Interrompi o meu pai, desculpando-me pelo meu atraso. Contei-lhe o que o velho havia me dito, e que o mesmo sabia o meu nome. Meu pai riu, dizendo que era delírio de uma jovem criança, e me conduziu de volta ao lugar onde eu disse ter avistado o camponês.

- Vê? Não há nada ali! E mesmo se houvesse, não há nada de extraordinário em um dos camponeses das redondezas saber o teu nome. Agora, andemos. Não vê que está prestes a chover? Olhe para o céu, está tudo escuro. Não tenho mais idade para ficar atrás de ti, procurando pela propriedade.

Como em uma ilusão mágica, o velho havia desaparecido dali, deixando para trás uma antiga pá, coberta por terra, e algumas batatas pisadas. Similar ao retrato de um truque assustador, o sol havia dado lugar a nuvens negras, que trouxeram chuva por três dias consecutivos.

Por mais estúpido que possa parecer esse relato, desde aquele dia eu passei a ter um sono inquieto. Pesadelos tomavam conta de minhas noites, e nestes sonhos obscuros, eu era lançada em um mar de corpos nus, que se contorciam em agonia. Por vezes, tocavam o meu corpo, que surgia envolto por um tecido leve... Em outras circunstâncias eu era sufocada por beijos ardentes que percorriam toda a extensão de minha pele. As carícias, posteriormente, passaram a dar lugar a terríveis mordidas, que seguidas por uma forte sucção, me faziam perder a consciência e despertar dos pesadelos que pareciam não ter fim.

Os sonhos negros cessaram quando meu pai, embora não fosse supersticioso ou algo similar, começou a ficar assustado. Logo ele chamou um padre da capital para rezar e abençoar o castelo. Lembro-me que ele me ensinou uma oração em especial, onde a invocação do meu anjo da guarda era o ponto central da prece.

Quanto ao que há de assustador em meus relatos, tenho que lhes dizer: não foi uma invasão em nossas terras ou o ataque de um “apaixonado” em meus aposentos. Foi um evento extraordinário, testemunhado por mim ao passear pelas redondezas.

Papai sempre cuidou para que eu fosse uma moça prendada e, acima de tudo, sempre me instruiu a usar o cérebro. De Berlim ele trouxe alguns tutores para me dar aulas de História, Geografia, Aritimética e outras disciplinas.

Numa manhã de sexta-feira, após tediosas lições de latim, Madame Lupret finalmente havia me dado permissão para andar pelas redondezas. Papai, ausente, havia retornado à Inglaterra para resolver questões relacionadas a uma herança deixada por um tio. Pois bem, não tardou até que eu me pusesse a caminhar pelas redondezas do schloss, inquieta com uma estranha agonia que tomava conta de meu coração.

Percorrendo algumas colinas, aproximei-me das margens de um riacho. O som dos pássaros na floresta passou a tornar-se cada vez mais distante, enquanto eu sentia que nuvens escuras passavam a tomar conta do céu, antes azul e tomado por raios de sol, que tocavam a minha pele de forma gentil.

Meus lábios estavam secos, minha garganta parecia trincar. Não resisti à água cristalina que corria sobre pedras bem recortadas. Abaixei-me e com a mão, levei um pouco de água à boca. O frescor e o prazer que eu deveria ter sentido ao beber daquela água deram lugar a um gosto peculiar, semelhante a sangue. Confusa, corri meus dedos pela água, até perceber que a água assumira uma tonalidade escura, em um vermelho intenso e sufocante, semelhante à cor do sangue. Como em um reflexo diabólico, surgiu ali o rosto de um homem desperto, com grandes olhos verdes arregalados. De sua boca, um grito estridente rasgou a quietude da floresta. Sua mão, ensangüentada, tomou a minha como se fosse o corrimão de uma escada para o paraíso. A força que fiz para tentar me soltar fez com que minha inclinação o ajudasse a emergir da água.

Minha expressão de horror não era o suficiente para expressar todo o pavor que me causou aquela cena. O rapaz, vestido com trajes de um nobre, tinha seus cabelos ruivos ensopados com sangue. Seu peito parecia ter sido atingido por vários golpes perfurantes, que abriram pequenos buracos de onde brotava seu sangue escuro. Seria ele uma das assombrações das quais falavam as crianças filhas dos camponeses? Seria ele uma alucinação, um “sonhar acordada”?

Não, eu não estava delirando ou em estado de sonambulismo. O jovem rapaz agarrou-se a mim, balbuciando um pedido de ajuda. Seus dedos corriam os meus cabelos que, antes loiros, passaram a assumir a cor do sangue que corria por suas mãos.

Em um ato de desespero, eu o arrastei para longe da margem do riacho. Gritei por alguns minutos, pedindo ajuda. Sem qualquer resposta, deixei-o deitado perto de uma pedra, correndo dali em direção ao schloss.

- Buscarei ajuda. Prometo voltar.

Ele me mirava com um olhar sereno, inclinado sobre a pedra. Suas mãos pareciam cobrir os seus ferimentos no peito. Com esforço, ele disse:

- Depressa...


CAPÍTULO II: O HÓSPEDE


O nome dele? Um mistério. De onde veio? Não havia como suspeitar ou tecer qualquer tipo de suposição.

Para o pavor de Baba, Nadine e Constance, eu decidi que o jovem rapaz ficaria sob os meus cuidados.

Os nossos criados o levaram para um dos quartos. Os aposentos eram, sem dúvidas, um dos melhores do castelo. Nas paredes, diversos quadros retratando momentos de festividades alemãs. Móveis de cedro e tapetes ingleses cobriam o chão frio. A cama, quente, abrigou o homem, que parecia transitar entre momentos de lucidez e delírio. Seus dentes, trincados, estavam pontudos e afiados, como se ele segurasse uma dor imensurável, uma dor que estaria rasgando as suas entranhas.

Era incrivelmente belo à luz dos candelabros, no quarto. Seus longos cabelos ruivos caíam por sua face. Eu nunca havia visto semelhante rapaz nas redondezas. De forma estranha e inesperada, senti-me atraída por sua figura, mas ao mesmo tempo, quase paradoxalmente, um sentimento de repulsa tomava conta de meu ser.

Mandei dois criados irem depressa trazer um dos médicos da capital. Baba e Constance gritavam comigo, alertando-me para a reação de meu pai quando descobrisse que abriguei um desconhecido em nosso castelo.

- Como pôde fazer algo assim, Christine? E se for um bandido ou um dos fugitivos dos quais havíamos ouvido falar? Teu pai irá nos culpar por permitir que abrigue este estranho!

Sentei-me ao lado do rapaz e comecei a limpar as suas feridas. As palavras de Madame Lupret, que acabara de entrar nos aposentos, também não surtiram qualquer efeito sobre mim.

- Sabes o tamanho da sandice que estás a fazer? Não percebes que trouxestes um estranho para o lar? Oh, menina, colocará todas nós em apuros!

Permaneci limpando as feridas do jovem, que tornou a perder a consciência.

- Enquanto gritam comigo, esquecem-se dos ensinamentos religiosos nos quais fomos todas instruídas. Crêem, sinceramente, que Deus se orgulharia ou iria valorizar fiéis que ignoram o estado de moléstia de um pobre coitado? Pensam no pior, mas vejam que estou a limpar as feridas de um homem que, de certo, estaria morto se não fosse por meus cuidados. Não conseguem ver? Olhem as vestimentas dele. É, sem dúvidas, um nobre. Há motivos para nos preocuparmos? Baba, Constance, tragam água quente.


O médico chegou horas depois, quando já havia começado a anoitecer. Era um velho homem com os seus 70 anos. Um dos mais conceituados médicos da capital.

- O Sr. Seu pai sabe que estás a abrigar um desconhecido?

A pergunta do velho foi mais uma das repetições que terminariam em um sermão sem fim.

- Doutor Henninger, eu o encontrei no riacho, próximo às colinas. Se não fosse por mim, estaria morto o pobre rapaz.

De fato, minhas palavras parecem não terem sido escutadas pelo velho homem que, ao examinar o peito do nosso desconhecido hóspede, assustou-se ao ver as feridas das quais brotavam linhas de sangue. Sangue este que havia parado de escorrer por seu peito.

- Impossível que esteja vivo. Deus, por milagre! Vejam essas perfurações no peito.

O caráter inacreditável da situação passou a me incomodar. De que importavam as suposições ou as surpresas? Que as deixassem para trás! Insisti até que o médico fizesse os curativos no jovem o quanto antes.

- Ele perdeu muito sangue. Precisa se alimentar. As próximas horas serão cruciais. Não posso fazer muito, além de recomendar que o alimentem com uma boa canja e o dêem muita água.

As horas passaram e não tardou para que o relógio da sala badalasse meia-noite. O doutor já havia ido embora, prometendo conversar com o meu pai assim que o visse. Madame Lupret dormia próxima a nós, assim como um dos criados que mandaram vigiar o quarto. Eu já perdia a consciência, quando uma voz baixa chamou a minha atenção.

- Onde... onde estou? Mirtzo, Kalik... onde estão os meus servos?

Ele havia despertado inquieto, mas logo tratei de acalmá-lo.

- Não se lembra de nada? Lhe encontrei em um riacho, próximo ao nosso schloss. Você está na propriedade de minha família, próxima à capital, Berlim.

- Fui... fui vítima... uma emboscada... devo estar... devo estar morto...

Passei um lenço úmido por sua face, que transpirava.

- Por milagre, o Senhor está vivo. As perfurações, a perda de sangue. Precisas poupar energias.

Ele me lançou um olhar hipnotizante. Com esforço, agradeceu-me os cuidados que recebera.

- Senhorita... como... como posso agradecer? Oh, maldito sejam os bandidos que me atacaram. Meus criados não devem ter sobrevivido...

- Agradeça-me descansando. Amanhã iremos trocar os curativos. Descanse para depois se alimentar.

Velei o sono do nosso hóspede desconhecido durante toda a noite, até que os meus olhos tornaram-se tão pesados, que eu já não suportava mais permanecer desperta.

Não tenho idéia de quanto tempo durou o meu breve descanso, mas apenas lembro-me de ter despertado após algum tempo, com a cabeça deitada sobre a cama do doente.

Em meu despertar, segurei um grito causado pelo susto que tive ao deparar-me com o rapaz, mirando-me com um olhar que eu jamais havia concebido em minha mente. Senti que a minha alma era invadida por um turbilhão de sussurros. Meu corpo entregou-se a um estranho devaneio, e peguei-me a despertar, novamente, próxima à cama do nosso hóspede, que dormia um sono tranqüilo, velado pelos primeiros raios de sol do dia.


CAPÍTULO III: UM VELHO AMIGO



Surpresas curiosas são, muitas vezes, chocantes.

Eu, apenas uma jovem “aristocrata”, confinada em um castelo, vivendo em um país relativamente estrangeiro aos meus hábitos, fascinada com o estranho perfeito que acabara de surgir em minha vida.

Para lhe ser sincera, eu não sabia que o que me causava tamanha euforia era a presença de um desconhecido. Não sabia se era a excitação pela situação inesperada, ou a fascinação que o jovem rapaz despertava sobre mim.

Deixe-me explica-los, de forma mais direta, algumas particularidades sobre este estranho rapaz, que passei a observar durante o período em que se recuperava dos ferimentos que sofreu.

Nos primeiros dias, fui eu mesma levar as refeições em seus aposentos. Foi nesse mesmo período que ouvimos notícias sobre um nobre, morador da Áustria, que buscava seu sobrinho desaparecido. Por coincidência, o nobre era um velho amigo de meu pai, descendente do brasão de Karnstein.

Nos dias que seguiram, ele permaneceu em um estado que se assemelhava a um transe. Eu o alimentava com dificuldades, visto que canjas, pães e sopas não pareciam lhe apetecer. Por mais bizarro que pareçam os fatos, é verdade que as suas feridas começaram a cicatrizar.
Estava forte e robusto, corado. O criado que vigiava seu quarto, durante a noite, relatou que nenhum barulho viria dali de dentro, mas que em um momento, quando decidiu checar para ver se o nosso hospede dormia, percebeu que a porta do quarto estava trancada a chave. Outro detalhe que me causou estranheza foi a sua sensibilidade ao sol. Sempre que abríamos as janelas dos aposentos e afastávamos as cortinas, o rapaz parecia se contorcer de dor. O quarto permanecia, então, escuro e úmido, o que me levou a estranhar esse ambiente que passou a lembrar um túmulo de luxo.

Cerca de sete dias após eu ter retirado o rapaz do riacho e tê-lo trazido para a nossa propriedade, papai retornou de sua viagem à Inglaterra, trazendo consigo a companhia de Lord Sentrich, que ele havia encontrado nas redondezas do nosso castelo.

Contei-lhe toda a história e, após recriminar-me por minha atitude tão impulsiva, ao trazer o moço para o seio de nosso lar, ele admirou a grandeza do meu gesto, especialmente pelo velho Lord reconhecer o jovem moço como o seu sobrinho desaparecido, vítima de uma emboscada por bandidos saqueadores.

Da última vez que eu havia visto o Lord, lembro-me de ser um senhor corado, risonho. Sua figura mudou bastante, entretanto, com o passar de dois anos. Estava pálido, magro, e a graça de sua fala havia desaparecido.

Os agradecimentos do Lord, por termos cuidado de seu sobrinho, deram lugar a uma conversa aflita entre ele e o meu querido pai.

Após observarem o estado de saúde do moço, chamado Cillian, dirigiram-se para a sala, onde trocaram algumas palavras. Corri pelo corredor, ouvindo protestos de Baba, e aproximei-me da escada que conduz para o hall de entrada do nosso schloss.

Em uma conversa aparentemente emocionante, Lord Sentrich lamentou com o meu pai um terrível fato: teria que ir a terras distantes, pois uma tragédia havia abalado a sua família. Impossibilitado de levar o seu sobrinho moribundo consigo, em viagem, pediu ao meu pai que lhe indicasse alguma estalagem para hospedar o rapaz.

- Mas como, meu amigo? Não há qualquer lugar na Alemanha que seja tão acolhedor como a nossa casa, o nosso lar. Meu tesouro, Christine, e todos os criados estão devotando cuidados ao seu jovem sobrinho, que parece-me estar recobrando as energias aos poucos. Não se preocupe, meu caro irmão, cuidarei para que ele permaneça aqui, confortável.

O velho Lord olhou para o meu pai com olhos de predador. Sorrateiro, desferiu um breve olhar para mim, apenas para despejar algumas palavras emocionadas para o seu velho amigo. Eu, tola, me senti envergonhada.

- Meu caro irmão Rutherford. Como posso agradecer-lhe? Devo confessar que o meu sobrinho é uma das minhas maiores preocupações. Devo lhe dizer, entretanto, que ele possui algumas sensibilidades. Seu estado de saúde sempre foi muito frágil. Agravou-se após a morte de minha irmã, que vivia na Áustria. Veio morar comigo e passei a cuidar dele como se fosse o filho que nunca tive.

- Sim, caro amigo, compreendo e respeito a situação.

O velho respirou fundo e, sentando-se em uma cadeira, disse algumas palavras ao meu pai:

- Retornarei em torno de 30 dias, para buscar o meu sobrinho. Não posso lhe contar, caro irmão, os fatos graves que se sucederam em minha família, ao ponto de eu ter que lhe omitir informações. Ah, caro irmão, tanto eu queria lhe dizer. Mas, veja que preciso seguir viajem agora. A busca pelo meu sobrinho, associada aos meus compromissos, esgotou-me a alma! Oh vida cruel, que levou a minha juventude com o passar dos anos, deixando-me esta coluna quase aleijada e a disposição de um velho.

Lord Sentrich não chegou a ir se despedir de seu sobrinho. Após conversar mais um pouco com o meu pai, montou em seu cavalo negro e seguiu viajem, guiado pela lua cheia, prometendo voltar para levar o seu “filho” de volta para casa.

Minha excitação fez-me gritar por dentro. Eu estava em estado de plena felicidade. Meu coração batia forte, agitando o meu corpete. Seria tão bom ter uma companhia, alguém com quem conversar, compartilhar os meus pensamentos e as minhas inquietações. Oh, mas, será que ele se sentiria à vontade em ouvir as bobagens de uma jovem tola? O que será que ele iria pensar de mim, já que apenas conversou comigo, brevemente, no intervalo de um devaneio?

Digo-lhe que tornei-me cada vez mais devotada ao nosso hóspede. Meus cuidados, associados às visitas constantes do médico, foram suficientes para que ele despertasse em uma tarde nublada, para o meu susto. De costas, após fechar as cortinas do quarto, ele pareceu sentir a minha presença.

- Então, é você?


Um estranho rubor tomou conta de minha face. Nervosa, o repreendi por estar de pé.

- Cillian... é este o seu nome, não? Seu tio esteve aqui, e pediu para que cuidássemos de você. Eu, eu estou espantada com a sua melhora. Graças a Deus! Pensamos que você terminaria não resistindo. Que prodigioso!

O rapaz virou-se para mim. Não havia percebido o quão alto ele era. Seus cabelos, presos por uma fita, davam-lhe um ar angelical. Sua pele, levemente pálida, causou-me uma fascinação estranha. Mas, nada era tão peculiar como os seus movimentos lânguidos – movimentos de extrema languidez.

- Você é a jovem moça, o anjo que me tirou daquele riacho, onde fui deixado para morrer. Nunca poderei lhe retribuir tamanho gesto, tamanha hospitalidade. Não posso, entretanto, abusar de sua generosidade. Partirei assim que estiver totalmente disposto, e não mais os importunarei.

Sua voz tão firme causou-me um calafrio. Eu estava fascinada, não percebia a aproximação do nobre, que em um gesto de extrema delicadeza, tomou a minha mão, aquecendo-a com um beijo.

Tremi. Tremi em minha alma, em meu coração. Meu cérebro era iluminado por tempestades e por uma voz oculta, estranha à minha normalidade.

Ecoava por meu ser uma frase funesta, terrível:

“ Eu vivo em você, e você morrerá em mim ”.


CAPÍTULO IV: SUAS PECULIARIDADES


Para uma mulher, as coisas podem ser consideravelmente mais difíceis, especialmente quando você se isola de todo o mundo e passa a nutrir o seu próprio espírito com sonhos bobos, ou simples devaneios em noites de outono.

O que eu tenho explicar é que a minha vida passou a mudar, e da mesma forma, passaram a mudar as vidas de todos os camponeses que viviam em nossa volta.

Na primeira noite em que ele desceu de seus aposentos e se reuniu a nós, meus olhos se abriram para um novo mundo.

Suas roupas, seus traços... tudo parecia muito mais nítido e menos nebuloso. Meu pai não escondeu a sua excitação ao conversar com Cillian. Era um rapaz inteligentíssimo, de educação esmerada. O que passou a me incomodar, naquela noite, foram os olhares insistentes que Cillian lançava para mim, nos momentos em que meu pai se distraia. Posteriormente, fazia-me passar por boba, quando eu me pronunciava e tentava fazer parte da conversa.

Minha inquietação permaneceu até o final da ceia. Minha preocupação, na mesma medida, aumentava. Ele apenas comia alguns legumes e tomava uma taça de vinho. Como poderia estar tão forte e robusto?

Meu pai logo se retirou para a sala, onde começou a fumar o seu velho cachimbo russo. Cillian, então, lhe pediu autorização para me levar a um passeio pelos arredores do schloss.

Inicialmente, papai hesitou, mas não tardou até se entregar às palavras de Cillian e à sua imagem que transpirava nobreza e atenção.

Atravessamos a ponte levadiça, que sempre deixávamos abaixada. Eu olhava fixamente para a frente, sentindo uma brisa fresca única.

- Então, Christine, como tem sido a sua vida?

Olhei para o chão, e percebi que a grama virgem tocava os meus sapatos. Cillian me segurou pela mão, fazendo-me parar.

- Você parece saber que a minha vida tem se esvaído com o passar das estações.

Ele sorriu, quase como um garotinho de 8 anos ao ver uma torta de chocolate dedicada somente ao seu estômago.

- Portanto, não há tantas coisas interessantes por aqui, minha querida? Ah, não sabes o quão vasto é o mundo.

Olhei para ele, fixamente.

- Portanto, meu caro amigo, devo crer que conheces muitos lugares além daqui?

Cillian olhou-me de uma forma tão única, quase perversa, que eu já não sabia se tudo aquilo era real.

- Olhe em meus olhos, Christine. Talvez assim, saiba o quanto eu já viajei. Ah... as moças. As moças são fantásticas. Vocês mudam tanto com o passar dos dias, com o passar dos anos. A perspicácia, a sagacidade...

Para a minha surpresa, ele me abraçou de uma forma que nenhum homem jamais ousou fazê-lo antes. Seus braços, agora tão fortes, envolveram a minha cintura, trazendo-me para mais perto de seu peito.

Senti-me embriagada, distante. Como se uma onda de emoções turbulentas tomassem conta de mim. Sua voz, tão única, corria pelos meus ouvidos.

- Estou aqui por você, Christine. O amor que lhe devoto é único, e é ingrato. Um dia você irá me acusar de egoísta, e até poderá me odiar. Ah, mas a intensidade... tudo é tão válido e deliciosamente nebuloso. Eu vivo em você, Christine, e você morrerá em mim, em mim... Os grandes amores são construídos com sangue, e o sangue ferve. O meu sangue ferve neste exato momento.

O estalo de um galho fez-me despertar de um momento pitoresco, um momento de transe.

Cillian me olhava distante, encostado em um banco, enquanto eu permanecia parada, confusa.

- Christine, sente-se bem? Perdoe-me, mas você simplesmente ficou parada aí... Eu não sei se...

A conversa de Cillian foi interrompida pelos gritos de um homem, que surgiu da escuridão carregando algo em seus braços. A figura revelou-se, e reconheci ali Bastian, um de nossos mais antigos criados, que buscava pela sua esposa desaparecida há poucos dias.

O desespero do homem intensificou-se, e seus gritos de horror atraíram a atenção de meu pai. Vários outros criados correram para acudir o homem, que deitou na grama o corpo de sua jovem mulher, cuja garganta havia sido dilacerada.

Apavorada, corri para perto do camponês, incrédula ao ver, pela primeira vez, um cadáver. Um cadáver de alguém que eu conhecia.

Com o passar das horas, terminou a noite que havia começado de forma tão peculiar, mas algo terminaria por chamar ainda mais a minha atenção:

Com o círculo de camponeses e criados que se formou em nossa propriedade, pouco poderia eu fazer. Meu pai prontamente mandou que eu me recolhesse em meus aposentos. Silenciosa e assustada, subi as escadas sem esperar que os meus pensamentos fossem interrompidos pela voz de Cillian.

- A morte lhe assusta, Christine?

Não o via em lugar algum, até perceber, do alto da escada, sua figura encostada perto da lareira.

- Eu... jamais havia presenciado algo tão terrível. Eu a conhecia, conheço a família dele. Que terror... pobre Bastian e pobre Maria.

Cillian bebeu um gole de sua taça de vinho, e antes que eu me retirasse, disse-me:

- Pois a morte é apenas um fato. É estúpido estares assustada com o que vistes... Assim como o sofrimento, é a morte uma conseqüência da vida. Todo mundo morre, e não há como fugir disso. Saiba que a morte pode ser o princípio de tudo para muitos, e o fim para alguns infelizes. Não creio que sejas uma infeliz, como aquela pobre que está lá fora, estirada.

Subi o restante das escadas sem olhar para trás. Naquela noite, os meus sonhos trouxeram-me inúmeros calafrios.


CAPÍTULO V: PARA RECORDAR


O dia que sucedeu aquela noite, tão terrível, despertou-me para novas percepções.

Como de costume, Cillian permanecia em seus aposentos, repousando. Papai, generoso, tratou de auxiliar Bastian com os preparativos para o enterro de sua esposa. Eis então, que decidi sair de meu quarto e ir até a cozinha, verificar os preparativos para o almoço.

Ao chegar na cozinha do castelo, vi Baba e Constance, comentando os terríveis fatos da noite passada. Ao lado delas, duas jovens camponesas depenavam duas frangas.

Permaneci encostada na porta, um tanto quanto abatida pelo o que eu havia presenciado ontem. As jovens moças, sem perceber que eu ali estava, iniciaram uma conversa sobre estranhos acontecimentos que vinham ocorrendo na região em que moramos.

- Pois Milittsa, o carpinteiro Jaffet nos assegurou de que viu uma figura flutuar pelo bosque no início da madrugada.

A outra moça franziu a testa, rindo em tom de deboche.

- Acreditas mesmo em tudo o que aquele tolo diz? Ora, todos sabem que ele quer lhe cortejar. Conta-lhe histórias bobas para que fiques com medo e se agarre a ele!

Baba e Constance olharam para as camponesas, pedindo para que parassem de falar bobagens.

- Mas é verdade, Senhorita Constance. Muitos moradores afirmam ter visto um vulto circular pela floresta, espreitando nas casas. Outro dia, a esposa de um lenhador disse ter sido atacada por algo quando foi tomar um pouco de ar, fora de casa. Ela afirmou a todos que “foi estrangulada na altura do pescoço”. A pobre caiu doente dias depois, e está custando a se recuperar.

Quando se deram conta de que eu estava a espreitar, as duas meninas cessaram a conversa. Curiosa, pedi para que não se importassem com a minha presença.

- Não as censurarei pelo diálogo! Confesso que estou assustada com o que aconteceu ontem à noite, mas não sou tão frágil dos nervos. Sei que o povo vive em folclore, mas não há nada de real em todos os contos e relatos.

Baba soltou um riso discreto, enquanto as jovens moças franziram. O dia, que havia começado relativamente ensolarado, tornou-se um tanto quanto nublado. E, logo ouvi os suaves passos de Cillian, que descia as escadas.

- Eu não gosto deste rapaz, disse Baba, contorcendo o corpo para certificar-se de que ele não estava por perto.

Eu ri com a situação, e logo expliquei:

- Baba, ele vem de um lugar distante. Tem as suas peculiaridades, mas é uma excelente companhia. Papai admira muito sua inteligência, e é, de fato, um nobre ao se dirigir ao próximo com tamanha gentileza e educação.

Baba não perdeu a oportunidade, e logo teceu um comentário que me desconcertou.

- É apenas o teu pai que o admira muito, Christine?

Muda, sorri amarelo e me dirigi à sala, ouvindo as derradeiras palavras de minha querida amiga:

- Christine, querida, seu pai pediu para avisar que o enterro da pobre Maria será agora à tarde. Será enterrada em vossa propriedade.

Andei até a sala, onde encontrei Cillian a admirar alguns retratos antigos, pertencentes à família de minha mãe. Um retrato em particular, de uma jovem de cabelos loiros, chamou a sua atenção.

- Parece-se com você, Christine.

Séria, aproximei-me de Cillian e tentei identificar qualquer traço que me aproximasse do quadro, que retratava uma nobre austríaca chamada “Laura”.

- Cillian, não creio que sejamos parecidas, exceto pela cor dos cabelos e dos olhos. Ela é muito mais bonita que eu.

O rapaz virou-se para mim, com os seus olhos gulosos e confortantes. Tocando o meu rosto, disse-me:

- Nem em toda eternidade haveria uma mulher tão doce e bela quanto você, Christine. E essa sua beleza deve sentir o frescor da tarde, como uma flor que desperta após um período de sono. Venha, venha comigo para um passeio.

Ainda temendo pela sua saúde, tentei recusar o convite do meu nobre hóspede.

- Eu ficaria encantada, mas ainda temo pela sua saúde. E se começar a chuviscar? Pancadas de chuva podem trazer resfriados ou coisas piores.

Cillian sorriu, como se eu houvesse dito a maior de todas as tolices.

Após almoçarmos rapidamente, seguimos pela sala de jantar. Madame Lupret comentou que eu naquele dia eu estava, particularmente, apressada. Entendi a sua mensagem como uma crítica aos meus modos, à minha bizarra pressa em estar perto do meu querido amigo. Ele, após o almoço, chamou-me e me disse:

- Sobre o teu receio, garanto-lhe que nem uma gota de chuva irá tocar a mim ou a ti. Venha, venha comigo. Mais perto, mais perto...

Cruzamos a ponte levadiça até uma área arborizada, próxima da entrada de nosso schloss. Sentei-me em um banco, e Cillian logo me acompanhou. Seus olhos, seu olhar... ele me observava de uma forma tão incomum que me pus nervosa, e comecei a brincar com uma velha corrente de ouro, deixada a mim por minha mãe. Ao fundo, contrastando com os sons dos pássaros e do vento, surgiu uma ladainha religiosa, comum aos católicos. Rasgando a paisagem silenciosa, veio a procissão com o corpo de Maria, guardado em um caixão de mogno.

Em sinal de respeito, levantei-me do banco e acompanhei a canção, cantando baixo. Cillian mirou-me assustado, e em seu rosto vi traços de um animal em agonia. Suas mãos, levadas aos ouvidos e os dentes que rangiam assustaram-me de uma forma inesperada.

- Não vê que isso me irrita? Tal tolice, tal cantiga pobre. Tudo isso, tudo me irrita, me fura os ouvidos, corrói-me os tímpanos.

Abaixei-me, ficando de joelhos perto do rapaz. Quando estendi as mãos para ver se ele estava bem, antes mesmo que eu tecesse qualquer comentário, a procissão passou por nós, e logo vi o meu pai, que acenou, convidando-nos a juntar-se a eles. Cillian, entretanto, puxou-me pela barra do vestido, quase caindo no chão.

- Tudo isso, tudo isso fere-me a alma! Não entendo essa situação. Todo mundo morre um dia! Ande, venha comigo para o castelo. Não me sinto bem. Preciso de sua companhia... uma boa taça de vinho e algumas torradas trarão as minhas forças de volta.

Sem entender aquela situação, conduzi Cillian de volta para o castelo. Ele deitou-se em uma poltrona de couro, próxima à lareira, e perto dele eu me sentei.

- Sente-se melhor agora, meu caro amigo?

Ele me observava de um jeito, que fez-me sentir despida, completamente nua diante de sua verdade. Então, o meu nobre amigo tomou a minha mão, pressionando-a contra a sua. Senti a sua respiração ofegante, e seus olhos... Ah, tão belos olhos verdes que pareciam estar ainda mais claros.

O caráter excepcional daquela situação fez com que eu me afastasse dele, sentando-me em outra extremidade do sofá.

Irritada, comecei a cobrar algumas respostas para perguntas que me inquietavam há algum tempo.

- Cillian, espero que não tome as minhas palavras como ofensa, mas eu não consigo compreender teu comportamento. Perante o meu pai, ri de minhas palavras como se eu fosse uma tola. Longe dele, é muito mais gentil e cordial comigo... e teus gestos e atitudes... tudo se torna tão mais suave. Não me contas nada sobre teu passado, ou sobre o que aconteceu no dia em que lhe encontrei no riacho.

Ele virou os olhos para o lado, com um sorriso discreto em seus lábios.

- Minha querida, queria eu poder dividir contigo todos os detalhes de minha vida. Dos instantes que precederam o nosso encontro, e a minha conseqüente salvação, pouco me lembro... apenas sei que os meus dois criados devem estar mortos. Se queres saber da minha vida, terei que lhe fazer uma pergunta.

Aproximei-me curiosa, e logo tratei de lhe dizer:

- Oh, Cillian, tens o dom de mudar de assunto!

Ele riu, e me perguntou:

- Minha cara, conte-me: já foi a algum baile?

Respondi, com um sorriso em meu rosto:

- Não, nunca fui a um baile. Conte-me, como é tudo? As danças, as músicas, as pessoas.

Cillian inclinou o seu corpo em minha direção, tomando a minha mão novamente.

- Palavras são uma ofensa quando tentamos descrever momentos tão especiais. Ah, minha querida... bailes são o florescer das almas! Os nobres conduzindo as donzelas em valsas intermináveis... a orquestra, o cheiro da festividade! Lembro-me do último baile do qual participei... ah, bons tempos...

Ele descrevia os detalhes como um velho descreveria o seu próprio casamento, em sua mais tenra juventude. A estranheza causada pela situação, onde enxerguei Cillian como um homem muito mais velho do que aparentava ser – um rapaz com, no máximo, cerca de 25 anos – deu lugar a uma conversa mais sombria e que, mesmo assim, continuou a exercer sobre mim um fascínio obscuro.

- Em um baile, minha doce Christine, conheci o amor. Um amor tão egoísta que sufocou a minha alma... Cessou em meu sangue, e estendeu-se por toda a eternidade. O amor, minha querida, pode ser fatal. E a sua fatalidade o torna único. É honroso, pois, quando dois amantes morrem juntos.

Permaneci pensativa ao ouvir as palavras que ele disse. Após beijar demoradamente a minha mão, Cillian desejou-me bons sonhos, e dirigiu-se aos seus aposentos, subindo as escadas.

As horas haviam passado sem que eu percebesse. Papai chegou em nosso castelo no início da madrugada, protestando por eu não ter me juntado a ele e aos camponeses durante a procissão.

Em todo aquele período de tempo, até então, os meus sonhos pareciam-me confusos. Eu me sentia envolta por uma densa neblina negra, que anestesiava o meu cérebro, paradoxalmente aflorando alguns de meus sentidos. E, entre um calafrio e outro, despertei de um sono profundo, mas... havia algo estranho.

Acordei assustada, olhando para os lados. O suor escorria por minha face, e eu apenas havia enxergado a vela que queimava ao lado de meu leito. Quando tornei a olhar para a direção de meus aposentos, vi surgir a figura de uma jovem mulher, vestida de branco. Seu rosto pálido e olhar de cadáver fizeram-me tremer. De sua boca, seca, surgiram palavras que ecoaram por todo o meu corpo.

- O assassino lhe deseja! Teu guardião manda lhe avisar.

Muito antes de eu começar a gritar, vi surgir ao meu lado a figura de Cillian. Suas vestimentas, repletas de sangue, trouxeram-me o desespero. De seus olhos, lágrimas de cor vermelha escorriam. As janelas de meus aposentos se abriram, e uma forta rajada de vento apagou a vela que queimava. Quando dei por mim, as duas figuras haviam desaparecido.
Meu desespero aliou-se ao pânico. Levantei de minha cama e corri, gritando, até o corredor. Eu estava certa de que algo terrível havia acontecido a Cillian. Ao bater em sua porta, não obtive resposta. Implorei para que ele abrisse, mas foi tudo em vão.

Desci as escadas correndo, não esperando me deparar com o que vi: as velhas portas de nosso castelo estavam escancaradas. A luz do luar penetrava em nosso lar, iluminando um corpo envolto por sangue, que repousava ali.

Perdi a consciência naquele instante, e apenas me recordo de ter sentido, antes do desmaio, o calafrio de quem é visitado pela morte.
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MensagemAssunto: Re: Um Pavor Precoce   Dom Jan 02, 2011 3:42 pm

Narrativa perfeita, escrita perfeita, e uma história que realmente prende a atenção.

Reli o primeiro, e li os quatro seguintes em sequência. Só posso dizer que estou ansioso pela continuação, a história parou em um momento crucial.

Parabéns pela fic.

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O olho do observador interfere no objeto observado.

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MensagemAssunto: Re: Um Pavor Precoce   Dom Jan 02, 2011 8:01 pm




Capítulo VI: A FALSA LOUCURA


Os camponeses acreditavam que os relatos de ataques noturnos e aparições inexplicáveis nas florestas das redondezas poderiam ser reais, ou apenas o resultado de uma estranha febre que vinha, há algum tempo, assolando a região.

Não dependendo, naquele momento, de qual das alternativas estava correta, eu passei a acreditar que talvez estivesse louca.

Após a minha pavorosa visão na sala, como contei em meu relato anterior, caí inconsciente apenas para ser desperta em meu quarto. Meu pai, um homem que sempre demonstrou força ao lidar com as mais inexplicáveis situações, segurava a minha mão como se eu ainda fosse a sua pequena menina.

Do outro lado do quarto, um jovem rapaz me observava, sentado em uma espreguiçadeira. Ao perceber que eu havia acordado, papai se pôs a me interrogar.

Contei a ele tudo o que eu havia visto. O seu olhar de preocupação, entretanto, me fez acreditar que não seria tão fácil convencê-lo de minha certeza perante a situação que eu havia vivenciado tempos atrás.

- Christine, minha querida filha, não há nenhum cadáver na sala, disse ele.

Fiz um esforço para levantar de minha cama, apenas para ouvir uma reclamação do jovem rapaz que estava sentado.

- Quem é ele, papai?

Aproximando-se de nós, tive a chance de ver o seu rosto com mais clareza.
Era um rapaz esbelto, branco e de profundos olhos negros. Os seus cabelos curtos e bem aparados levaram-me a crer que ostentava alguma posição importante. Seus seguintes conselhos e recomendações confirmaram a minha suspeita de que era o jovem médico do qual eu havia ouvido falar, e que substituiria o nosso velho médico, que já pensava em se aposentar.

O rapaz sorriu e revelou o seu nome: Joseph.

Em minha presença, recomendou-me descanso. Havia notado uma leve febre em mim, e em suas explicações, convenceu-me de que eu havia caminhado em estado de sonambulismo pelos corredores do castelo. A febre o estado de sonambulismo poderiam ter contribuído para uma alucinação convincente.

Preferi acreditar em suas palavras, ao invés de considerar como verdadeira a terrível cena que presenciei. O jovem médico e meu pai pediram-me licença ao dirigirem-se para fora dos meus aposentos. Antes de sair, peguei o jovem doutor Joseph a me olhar, com um sorriso reconfortante em seus lábios. Fiquei corada, mas logo tornei a cochilar por alguns minutos, até sentir uma presença familiar em meu quarto.

Ao abrir os olhos, vi Cillian ajoelhado aos pés de minha cama, com a cabeça apoiada nos lençóis, a me olhar.

Sentei-me em meu leito, enquanto ele permanecia ali, estático. Seu belo rosto estava mais pálido que o normal. Contei a Cillian a terrível alucinação que eu havia tido, e logo ele se aproximou de mim, pela outra extremidade da cama.

- Em nossos sonhos, experimentamos as mais diversas sensações, disse ele.

- Sim, não há como discordar, meu caro amigo, mas foi tudo tão real como o agora.

Notei que o olhar de Cillian parecia mais melancólico que o normal, e não hesitei em lhe perguntar:

- Que egoísta sou, meu nobre amigo! Espero que estejas bem dos nervos. Há algo que queira me contar? Sente-se bem? Não hesite!

Cillian aproximou-se de mim. Senti o seu perfume suave, que me embriagava aos poucos.

- Christine, jamais eu havia sentido tamanho terror como no momento em que lhe encontrei caída, na sala do castelo.

Os meus olhos brilharam ao descobrir que foi Cillian a boa alma que pediu por socorro ao encontrar-me desacordada. Sorri docemente para o meu amigo, que tomou as minhas mãos, apenas para levá-las até o seu rosto.

Estremeci como jamais havia estremecido antes. Suas mãos acariciavam as minhas delicadamente. Seus beijos ardentes começaram pelas pontas de meus dedos, prosseguindo até os meus braços. Ele se inclinou sobre mim, tendo a ousadia que eu jamais havia observado em homem algum. Seus beijos prosseguiram até as minhas bochechas, quando se tornaram ainda mais ardentes. Sua respiração ofegante pareceu me despertar de um transe, onde as minhas forças já haviam me abandonado.

Empurrei Cillian para que saísse de cima de mim. Seu olhar de pavor tornou-lhe irreconhecível para mim. Levantei-me trêmula de minha cama, e não hesitei em lhe falar:

- Quando ages dessa forma, não lhe reconheço, e termino por não reconhecer a mim mesma. Estás a trair a confiança que depositei em ti, e acima disso, a confiança que o meu pai lhe devota. O que queres, afinal? Eu não reconheço o meu amigo. Respeita a minha honra!

Altivo, Cillian levantou-se do chão, mirando-me com frieza.

- Assim que lhe viu, o amigo médico de seu pai não hesitou em lhe olhar, mesmo desacordada.

Enraivecida, elevei o meu tom.

- Não me importo com isso. Não o conheço. E não vou permitir que mudes de assunto.

Um ar sinistro tomou conta do meu honorável hóspede. Um sorriso estranho pairava em seu rosto.

- Eu quero você, Christine. Lhe desejo desde muito cedo, bem antes de você ter consciência de minha existência. Você é minha... você deverá ser sempre minha, e juntos, como um só, seremos eternos em nosso amor.

Ordenei que ele deixasse os meus aposentos, e assim ele o fez, sem deixar de me olhar por um segundo sequer. Confesso a você, meu caro leitor, que eu me enxerguei entregue às carícias e beijos intensos daquele homem, mas enquanto humana e inconstante, parece-me que minha natureza instável despertou-me para o quão absurda era aquela situação.
Cerca de uma hora depois, desci as escadas devagar, contrariando as recomendações que haviam sido a mim feitas. Para a minha surpresa – desagradável, friso eu – ouvi uma conversa entre o meu pai e o jovem rapaz. Eu acabei de descobrir que mais jovens mulheres haviam sido vítimas de um espectro demoníaco, que havia lhes estrangulado na altura do pescoço. O médico contou a meu pai que um “especialista” havia sido designado para investigar os acontecimentos extraordinários que se davam na região. Ambos trocaram olhares inquietos, e logo dirigiram-se para a sala de jantar. O jovem doutor passaria a noite em nosso castelo, pois já era muito tarde para tomar a estrada de volta para a sua casa.

Ao ouvir a conversa dos dois, terminei por sentir uma terrível agonia em minha alma. Eu me sentia louca, como se houvesse perdido a noção de tempo e espaço. Uma bizarra inquietude corria por todo o meu corpo, e logo retornei aos meus aposentos, sem que a minha presença nas escadas fosse percebida.

Inocente, mal sabia eu o que me esperava naquela noite.
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MensagemAssunto: Re: Um Pavor Precoce   Qua Jan 05, 2011 9:17 pm




CAPÍTULO VII: EM UM ESPELHO NEGRO


Os fatos que narrarei, meus caros companheiros, são tão inacreditáveis que me levaram à certeza de que estava louca.

Naquela noite, ainda um tanto debilitada, preparei-me para dormir. Não demorou até os sonhos vazios tomarem conta de minha mente, mas, havia algo além da estranha sensação que eu já sentia há algum tempo.

Coberta pelos lençóis de seda, passei a ouvir vozes vindas de cada canto escuro de meu quarto. Não eram vozes familiares, ou vozes que lembrassem sons humanos. Eram vozes demoníacas, contorcidas e apavorantes. Reconheci palavras em latim e alemão, e me apavorei conforme aqueles sons infernais se intensificaram.
Acreditei sonhar acordada, enquanto a vela queimava ao meu lado, até o momento em que um calafrio bizarro correu por toda a minha espinha.

Ouvi alguns passos vindos na direção da minha cama, suficientes para que eu espiasse, dobrando o cobertor. A visão que tive foi suficiente para eu estremecer até o meu último fio de cabelo.

No chão do meu quarto, percebi uma grande figura negra, semelhante a um grande felino. Seus olhos vermelhos serpenteavam ao meu redor, até que a criatura se aproximou. Seu corpo largo e esbelto tornava ainda mais sinistra a situação, até o ponto em que senti o impacto de seu peso sobre a minha cama. Antes que eu sequer pensasse em gritar, a criatura achatou-se sobre os meus pés, estendendo-se em minha direção.

Embriagada por um transe diabólico, senti a figura tomar contornos humanos, pressionando-me contra a cama. Por mais que eu me esforçasse para me livrar daquele encanto sobrenatural, eu não conseguia... Uma pressão forte seguiu por todo o meu peito, atingindo o meu pescoço. Um leve sopro da figura fez com que os meus cabelos se espalhassem pelo travesseiro. De repente, senti uma forte dor na altura da garganta, como se tivesse sido espetada por duas grandes agulhas. A dor forte transpassou o meu estado de alucinação, despertando-me naquele instante.

Acordei empapada por um suor frio. Minha visão estava turva e eu tremia. Meus olhos lacrimejavam e minha boca estava seca, com os meus lábios rachando.

Eu estava apavorada, como uma criança ficaria após um terrível pesadelo. Pensei em gritar, gritar o mais forte possível, mas abandonei a sensação de desespero ao me lembrar dos eventos que vivi horas atrás. Trêmula, levantei-me da cama com dificuldade, sentando-se de frente à minha penteadeira. Ao me olhar no espelho, custei a me reconhecer: estava pálida, com as pupilas dilatadas. Os meus cabelos loiros combinavam com o meu estado de pavor, projetando a imagem de um fantasma em meu espelho.
Corri minhas mãos pelo meu rosto, até tocar a minha garganta. O meu pescoço doía de forma absurda, e percebi dois pequenos furos em minha garganta.

Não conseguia chamar pelo meu pai ou por Deus. A minha garganta ardia, como se tivesse sido cortada por uma chuva de facas. Minhas forças pareciam abandonar-me rapidamente, até o instante em que senti o impacto de minha queda no chão.

Já era manhã quando acordei. Um tímido raio de sol iluminou o meu rosto timidamente. Zonza, consegui trocar as minhas vestimentas, optando por um vestido escuro, mas belo. A gola alta, ao menos, escondia as duas feridas em minha garganta.

Desci as escadas apoiando-me na parede. Cambaleei até a sala de jantar, onde automaticamente sentei-me perto de meu pai. Não havia nada em minha frente, além de uma nuvem de poeira negra.

As vozes que ouvi, vindas de meu pai, do jovem médico e de um estranho convidado, pareciam barulhos infernais que rasgavam os meus tímpanos. Olhei para uma tijela de porcelana, posicionada diante de mim, e apenas senti um gosto azedo em minha boca.

Naquele instante, vomitei algo sobre a mesa. Minha visão pareceu retomar ao normal, por um instante, e foi o suficiente para eu ver que havia expelido uma grande quantidade de sangue.

O estranho convidado que estava em nossa mesa exclamou:

- Por Deus, então é verdade!

E assim, meio acordada e meio dormente, fui levada pelo médico até os meus aposentos, enquanto o meu pai gritava desesperado. Estirada nos braços do rapaz, vi a porta do quarto de Cillian se abrir rapidamente, enquanto ele me espreitava com um sorriso doce em seus lábios. O velho que nos acompanhava pareceu ficar estático por um segundo, como se tivesse sentido uma presença estranha à nossa.

Em minha cama, senti as mãos do médico tocar meu vestido, na altura da gola. Um burburinho aliado aos prantos de meu pai foi a última coisa que escutei, antes de dormir profundamente.
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